O diagnóstico tardio de Autismo em mulheres adultas: por que é tão difícil de identificar?
- Sharon Cardoso da Silva
- 22 de jun.
- 3 min de leitura
Durante décadas, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi retratado pela mídia e pela ciência sob um único estereótipo: o do menino na infância, fascinado por padrões lógicos e com dificuldades óbvias de interação. Esse olhar limitado fez com que uma geração inteira de mulheres autistas crescesse completamente invisível aos olhos da sociedade, de seus pais e até de profissionais de saúde.
Muitas dessas mulheres chegam à vida adulta colecionando diagnósticos errados ou incompletos como: ansiedade generalizada, depressão, fobia social ou transtorno de personalidade de borderline, além de uma sensação dolorosa de que "vieram ao mundo sem o manual de instruções".
Se você passou a vida inteira se sentindo diferente das outras pessoas, mas nunca entendeu o porquê, compreenda como o autismo se manifesta de forma sutil e silenciosa no público feminino.
O teatro invisível do Masking
A principal razão pela qual as mulheres autistas demoram tanto para serem identificadas é a sua alta capacidade de camuflagem social, um fenômeno conhecido pelo termo em inglês masking. Desde a infância, as meninas são muito mais cobradas socialmente para serem comunicativas, gentis e expressivas. Para tentar se adaptar e evitar a rejeição, a mulher autista passa a observar o comportamento das outras pessoas de forma quase científica e começa a imitá-los de forma consciente.
Ela força o contato visual mesmo sentindo um incômodo profundo, decora assuntos que estão na moda para ter o que falar, treina expressões faciais em frente ao espelho e ensaia roteiros inteiros antes de um evento social. Viver interpretando esse personagem consome uma energia vital gigantesca. O resultado desse esforço invisível costuma aparecer na vida adulta na forma de um esgotamento severo pós-interação.
É aquela necessidade urgente de isolamento e silêncio absoluto após passar poucas horas em reuniões de trabalho ou festas, ou até mesmo em episódios de burnout autista, onde o corpo e a mente simplesmente travam diante da rotina.
Os sinais que as aparências não mostram
Por trás da aparência de uma mulher que parece dar conta de tudo, o autismo na vida adulta se expressa em detalhes da intimidade. Pode ser aquela hipersensibilidade sensorial que os outros acham que é "frescura" como um incômodo insuportável com o tic-tac de um relógio, texturas de certas roupas ou luzes fluorescentes.
Manifesta-se também na necessidade extrema de previsibilidade, onde uma mudança de planos de última hora gera uma angústia profunda, ou na presença de interesses intensos e focados (o hiperfoco), onde a mulher se aprofunda de forma obstinada por temas específicos por meses ou anos. Há, ainda, uma sensação constante de inadequação diante de regras sociais implícitas, ironias ou "joguinhos" de convivência, já que a mente autista busca e valoriza a comunicação direta e honesta.
A liberdade de tirar a máscara
A busca por uma avaliação na vida adulta não serve para limitar ou colocar a mulher em uma caixinha, mas sim para o oposto: para libertá-la. Descobrir-se autista traz respostas para perguntas de uma vida inteira e permite o início de um processo de profundo autoacolhimento. É o momento em que a mulher finalmente para de se culpar por não ser como as mentes neurotípicas.
Se você suspeita que o seu jeito de ser e o seu esgotamento diário estão ligados ao espectro autista, saiba que é possível investigar isso com total segurança. A Avaliação Neuropsicológica em adultos é um processo humanizado, criterioso e focado na sua história de vida e no seu funcionamento atual.
Viver camuflando quem você é gera um sofrimento invisível, mas você não precisa continuar sem respostas. Vamos entender a sua mente juntas?
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